sexta-feira, 8 de junho de 2012

O descobrimento do ouro e seu impacto na economia colonial

O descobrimento do ouro nas Gerais propiciou a ascensão da elite mercantil ao topo da sociedade colonial brasileira do século XVIII. E ao topo de todo o império português, também.









LIQUIDIFICANDO E PENEIRANDO
HISTÓRIA DO BRASIL COLONIA



O DESCOBRIMENTO DO OURO E SEU IMPACTO
NA ECONOMIA COLONIAL




O setecentos é uma época de novos equilíbrios na sociedade colonial da América portuguesa. Não seria nenhum exagero falar que, com o descobrimento do ouro no meio das montanhas do que seria chamado mais tarde de “Minas Gerais”, o Portugal-Metrópole era fatalmente dependente de sua colônia sul-americana. No seicentos anterior, Dom João IV, o rei bragantino da Restauração, já intitulara o Brasil como “a vaca de leite de Portugal”, o mesmo Portugal dilapidado pelas questões externas dos Habsburgos espanhóis e pelos acordos firmados com os Países Baixos para reconhecer seu senhorio sobre o Pernambuco açucareiro (ver mapa sobre as extensões das partes do Brasil nos períodos citados, 1709 - 1789).















Portugal e Espanha procuravam metais preciosos pelo interior da América do Sul desde o século XVI. Algumas descobertas no final dos quinhentos estimulara a Coroa de Madri a recriar a “Repartição Sul”, na tentativa de reproduzir nos domínios ex-portugueses a experiência da parcela espanhola americana; mas, no fim, o que prosperou de fato no período que vai até meados do século XVII fora a captura de índios. A mineração, embora existente, quase nenhum impacto provocou na economia colonial. Após a Restauração (1640), intensificou-se as buscas por conta do empobrecimento da Metrópole e da própria colônia: fracassos em 1658 e 1671 acabaram por estimular a fundação da Colônia do Sacramento (1680), em frente a Buenos Aires, como forma de se ter acesso à prata espanhola. E embora a Coroa não mais financiasse expedições para achar os metais preciosos, estimulava aos paulistas em troca de privilégios caso os descobrissem. Assim, no apagar do século XVII, descobrira-se as “minas do ouro”, e posteriormente denominadas de Minas Gerais.


Compreendamos os impactos provocados pela descoberta do ouro na sociedade colonial setecentista: os diretos, na economia; e os indiretos, no tempo e no espaço.

Os preços sofreram o primeiro impacto. Houve um forte aumento decorrente da mineração. A obtenção de escravos para a região sofre um acréscimo no preço de compra em até 200% na Bahia e 135% no Rio de Janeiro. Nessas mesmas regiões, a carne e a farinha de mandioca subira progressivamente até a década de quarenta daquele século. Com a passagem dos anos houve uma estabilização nos preços, e um mesmo produto em várias partes da América portuguesa variava muito, pois ainda não existia aquilo que chamamos hoje de um “mercado nacional”. Voltando aos escravos, a demanda subiu muito a ponto de se considerar o primeiro exemplo de um 'rush' migratório por conta da mineração nos tempos modernos.

O afluxo do ouro nas Gerais avolumou sobremaneira o tráfico de escravos, determinando um novo patamar nas relações comerciais atlânticas. Mas a expansão deste comércio de almas não era somente consequência da demanda gerada pelo ouro, também fora o resultado da utilização do ouro nos circuitos negreiros, criando uma expansão na oferta de cativos no litoral africano e modificando alguns cenários financeiros internacionais: Angola, por exemplo, tivera sua realidade econômica (baseada num dinheiro cunhado em cobre) bastante afetada com a enxurrada de ouro e prata luso-americana em seu mercado; na África Ocidental, uma rede de contrabandistas de ouro por escravos envolvia alguns dos maiores negociantes do Rio de Janeiro; e Lisboa, sede do império português, ficava parcialmente de fora deste eixo mercantil entre Brasil e África, uma vez que, mesmo com proibições incisivas do rei quanto ao comércio entre o Rio de Janeiro e a Costa da Mina, o mesmo prosseguia, até mesmo adquirindo cativos com comerciantes de outras nações européias, lá também fundeados para esse fim. A cidade carioca, que se tornaria ainda no século XVIII a capital da colônia (1763), paulatinamente ultrapassaria Salvador como o principal destino de escravos oriundos da África Centro-Ocidental.

Criada em 1680 , a Colônia do Sacramento, que viera ao mundo para tirar partido das proximidades da zona produtora de prata de Potosí, transformara-se numa das vias de contrabando do ouro das Gerais, numa troca com a prata espanhola: tanto um como o outro apossavam-se dos metais numa via clandestina farta e compensadora. Até mesmo para evitar reclames espanhóis quanto ao suspeito circuito de sua prata em terras luso-brasileiras, sugerira-se comprar a mesma no mercado negro e cunha-las como moedas provinciais – apenas para mostrar o ponto em que a riqueza dos diversos veios de metal do continente havia alcançado nos setecentos.

Até mesmo as naus da Carreira da Índia foram afetadas pela presença do ouro. No último terço do século XVII aproximadamente a metade das embarcações que iam do Oriente para Portugal faziam escala no Brasil para aumentar suas cargas e vender produtos orientais, e a Bahia era o ponto principal desta escala, pois a prioridade era encher os porões com o tabaco e o açúcar locais. Já no século seguinte, o ouro que chegava a Portugal possibilitara ao reino o acesso a recursos suficientes para garantir uma expansão mercantil sem a correspondente expansão produtiva.

O duplo significado do metal – como moeda e mercadoria – abria enormes possibilidades mercantis no interior do império. Desenvolvia as relações internas de mercado e gerava uma nova geografia econômica. Colonizava-se novas áreas, pouco ou nada integradas ao espaço colonial e, ocupando-se tais áreas, gerava eixo mercantil específico voltados para as regiões produtoras do minério e sistemas agrários destinados à produção de artigos primários para essas mesmas áreas. O Rio de Janeiro despontou como principal centro administrativo e econômico.
Embora a importância do ouro seja esmagadora nesse período, há uma certa relatividade nessa supremacia comercial, pois quando começa o processo de declínio da mineração no fim do século XVIII, não ocorreu uma crise na economia colonial, pois muitas culturas ainda sustentavam diversos setores e espaços geográficos do Brasil; por exemplo, a agropecuária instalada nas regiões das Minas estruturaram-se tanto para atender ao consumo do produtor como para produzir excedentes destinados ao mercado dentro (e fora) da capitania. E em regiões não-mineradoras, a produção de alimentos era um pressuposto para a existência das atividades de exportação. Essa estruturação teve um modelo significativo nas antigas áreas açucareiras do Rio de Janeiro, decadentes canaviais que souberam transitar para uma enorme produção de alimentos graças ao crescimento da população como a importância de seu porto, focos de uma população flutuante que precisava ser alimentada. Bahia e Pernambuco também tiveram a produção de alimentos de subsistência consideravelmente acrescida nesse período.

Por conta do poder obtido pelo ouro das Minas, todo um lucrativo circuito favorável ao Brasil acontecera naquela época. A colônia sul-americana ultrapassara Portugal no quesito econômico, a ponto de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, juntos, possuírem mais navios que toda a frota portuguesa. Sob o comando dos negociantes do Brasil, o comércio de panos asiáticos interligou diferentes áreas do Império português, colocando-as em rota de colisão com os administradores lisboetas. E era tal a inversão de papéis que os gerenciadores lusos diziam que “era a América portuguesa que representava o país dominante de Portugal, ao invés do contrário”.

Um novo perfil social dominante surgiu de dentro de toda essa fermentação: a elite mercantil. Mesmo que a sociedade colonial tenha surgido fortemente vinculada à atividade mercantil, a antiga elite senhorial, pelos mecanismos das redes clientelares de poder e sua simbologia espalhadas por todo o mundo luso, tinha sua preponderância política garantida. Além disso, a existência de um significativo mercado interno gerava eixos de atuação com agentes dedicados a eles de forma integral ou parcial, levando a participação da própria elite senhorial na mercancia. Mas a partir da primeira metade dos setecentos, essa elite mercantil começou a compreender o seu papel no contexto do império lusitano. Controladores do crédito e da mão-de-obra (escravos), os homens de negócio tinham acesso – por conta de adiantamentos cedidos a senhores de engenho ou contratadores de zonas auríferas – aos valiosos produtos coloniais, seja o açúcar, o ouro ou os escravos.

As relações entre a antiga elite senhorial e a nova elite mercantil foi bastante diversa em seus aspectos complicadores e facilitadores. Há respostas distintas em vários cantos da colonia que merecem cuidadosa análise.

Em Pernambuco, a tensão produzira um confronto direto entre a nobreza da terra e a elite mercantil: a elevação de Recife à condição de vila em 1709 resultou a chamada “guerra dos mascates”, não havendo a absorção, nem mesmo parcial, da elite mercantil pela antiga elite local. Na Bahia, ao contrário, os dois grupos uniram-se desde o século XVII, como se comprova com a conversão de grandes comerciantes em proprietários de terras e homens, seja via investimentos diretos, seja pelo casamento com filhas da tradicional elite terratenente. E no Rio de Janeiro foi, de certa forma, um meio termo entre os pólos. A tensão entre os grupos foi clara no início dos setecentos mas não houve disputas sangrentas como em Pernambuco e nem mesmo um fechamento do grupo antigo senhorial às negociações pelo poder. As duas concepções distintas de poder político (a elite senhorial forjada nas guerras contra franceses e tamoios e os grandes negociantes responsáveis pelo giro do comércio na principal encruzilhada do império português) disputavam o símbolo histórico de supremacia política do bem comum: a Casa da Câmara. No que pesem as diferenças, no entanto, em todos os casos, o desfecho teve grandes semelhanças: a elite mercantil tornara-se de forma irreversível a elite de fato da sociedade da América portuguesa.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
(baseadas em O Antigo Regime nos Trópicos, organizado por João Fragoso, Maria Fernanda Bicalho e Maria de Fátima Gouvêa)
SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá de. Os Homens de Negócios do Rio de Janeiro e sua atuação nos quadros do Império Português, págs 73 a 105

FERREIRA, Roquinaldo. Dinâmica do Comércio Intracolonial: geribitas, panos asiáticos e guerra no tráfico angolano de escravos, págs 339 a 377.          


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Pernambuco Holandês (resumão do Evaldo)






Segue o texto liquidificado e peneirado sobre o período que antecede a Revolta dos Mazombos em Pernambuco (1666-1715). Vamos lá, povo da História!









LIQUIDIFICANDO E PENEIRANDO
HISTÓRIA DO BRASIL COLONIA

O PÓS-PERNAMBUCO HOLANDÊS
1 6 5 4 - 1 7 1 5


“(...)Os vínculos coloniais entre Pernambuco e Portugal foram assim redefinidos a partir do papel exercido pela açucarocracia na liquidação do domínio holandês(...)” . A restauração sob a égide dos Bragança acontecera em pleno andamento das contendas entre os holandeses e os países ibéricos agora separados; a estrutura montada pelo aparato batavo em terras de Pernambuco ocasionara a ascenção de Recife – então capital do Brasil Holandês, com todo requinte nassoviano de direito – em detrimento à Olinda. O antagonismo entre os mercadores reinóis e a nobreza da terra pernambucana ganhara viço quando a Coroa, observando a pujança da comunidade mercantil que mantinha a antiga sede fundada por holandeses, seus monumentos civis, militares e religiosos, assentara-se ali graças à superioridade militar e comercial do sítio bem como o ponto de partidas e chegadas da frota lusa a serviço do Rei. Mesmo que, em 1663, a decisão real após a consulta ao Conselho Ultramarino fixara a transferência do governo da capitania em Olinda – pois, apesar de representar a fachada urbana de uma nobreza inteiramente ruralizada, mantinha duas instituições citadinas de inequivoca presença da autoridade imperial portuguesa, a Santa Casa de Misericórdia e a Casa da Câmara - , os agentes d'El Rei não tinham a menor intenção de se privar do conforto, dos recursos e da sociabilidade reinol que lhes podia oferecer a ex-capital do Brasil holandês, inclusive investindo pesado em sua manutenção.
Com isso, foram os pernambucanos solicitar ao Rei honras, mercês e cargos em troca de seu empenho na expulsão dos holandeses, “à custa de nosso sangue, vidas e fazendas”, revelando exemplos práticos que levou vassalos reinóis e ultramarinos a se constituírem em sujeitos políticos nas tessituras das redes de poder e negociações no império português. Os mesmos senhores de engenho que se endividaram com os sucessores de Nassau (WIC), já arruinados pela nova direção, terminaram por pegar em armas nas duas sedições dos Guararapes e na Campina do Taborda (1654) que formalizara a rendição holandesa. Mas a indenização aos Países Baixos fora parcelada em quarenta anos e saíra dos bolsos arruinados dos senhores de terras pernanmbucanos, somando-se a isso a baixa do preço do açúcar na Europa e a destruição dos muitos engenhos durante os conflitos. Entre 1654 e 1710, a dificuldade passada pela açucarocracia aumentara com a chegada paulatina de renóis ao Recife; vendo aqueles usufruírem de privilégios e honrarias cabíveis (segundo estes) apenas aos descendentes dos defensores da terra, promoveram uma insurreição por parte dos mazombos que geraria uma reação dos mascates recifenses, reprimida duramente pela Coroa (1711-1715), chamada geralmente de Revolta dos Mazombos.



REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

CABRAL DE MELLO, Evaldo. Rubro Veio – O Imaginário da Restauração Pernambucana. págs 105 a 122. São Paulo: Editora Alameda, 2008.

BICALHO, Maria Fernanda, professora-adjunta da Universidade Federal Fluminense. Cidades e Elites Coloniais – Redes de Poder e Negociação. Rio de Janeiro: artigo da revista Varia História, nº 29, jan 2003.    

sexta-feira, 18 de maio de 2012

A Sombra e a Escuridão (Filme)





Se ainda restar uma analogia histórica para esse bem elaborado filme (convém que sensibilidades mais acuradas não o assistam, pelas cenas selvagens em excesso), que seja com o período colonialista dos oitocentos, quando a Europa saiu para dominar o mundo com seus avanços tecnológicos, financeiros e militares. Seriam os animais a reação autóctone contra o selvagem avanço das ferrovias - símbolo maior da Hobsbânica Era dos Impérios?!

Confiram, amigos! E boa diversão.

http://www.youtube.com/watch?v=I63hy3TDIWM&feature=related

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Danton: O Processo da Revolução (Filme)





Dirigido pelo polonês Andrzej Wajda, este filme revela o momento crucial da Revolução Francesa: 1794, quando os jacobinos decidem mergulhar o país num mar de sangue com a execução de Georges Jacques Danton, notável orador e líder dos Cordeliers - ninho da liderança dos Sans-Cullotes, e um dos únicos a conter a tendência totalitarista do cérebro do Comitê de Salvação Pública da I República, o frio e calculista Maximilien Robespierre.


Aproveitem, amigos! O período chega ao fim, vamos lá!


http://www.youtube.com/watch?v=Danton I
http://www.youtube.com/watch?v=Danton II
http://www.youtube.com/watch?v=Danton III
http://www.youtube.com/watch?v=Danton IV
http://www.youtube.com/watch?v=Danton V
http://www.youtube.com/watch?v=Danton VI



quinta-feira, 3 de maio de 2012

Atlas Histórico Mundial Interativo - GeaCron




Acesse qualquer parte da Terra, a partir de 3000 a.C. neste link abaixo: site GeaCron, que facilita a pesquisa de todo aspirante à Historia.

Uma dica: controle o mapa a partir das barras à esquerda da tela. Vá com calma, pois alguns mouses são nervosos demais para a navegação no site. Transfira logo para o português (está em espanhol, na origem) e enquadre no período adequado às suas pesquisas.

Bons estudos, galera!

http://geacron.com/home-pt/?lang=pt-pt

segunda-feira, 30 de abril de 2012

As Estruturas na Alta Idade Média - O Mundo Carolíngio

Resumo da próxima matéria do Prof. Alexandre Mérida - vamos lá, rumo ao canudo!




LIQUIDIFICANDO E PENEIRANDO
HISTÓRIA MEDIEVAL
O MUNDO CAROLÍNGIO



MENDONÇA, Sonia Regina de. As Estruturas na Alta Idade Média Ocidental. O Mundo Carolíngio. Rio de Janeiro: Editora Brasiliense, 1985.


Resumido e ilustrado livremente por: Jorge Luiz da Silva Alves, 3º período, UCAM/Santa Cruz (noite).




FORMAS DE PRODUÇÃO


Do século V ao século VIII, a Europa Ocidental atravessou um processo de regionalização e fragmentação de todo arcabouço do mundo romano; apenas a Igreja, por sua amálgama entre os mundos bárbaro (ou transdanubiano) e romano, é que preservou a idéia do que seria um poder universal num panorama totalmente descentralizado. Enquanto Roma constituía uma nova forma de produção não escravista no campo com a ampliação das vilas e a fixação da população dispersa nos domínios, os bárbaros contribuíram para acentuar o processo supracitado ao recriar o campesinato livre.
Constituindo aproximadamente cinco por cento da população do Ocidente clássico, os germanos que produziam em seus alódios¹ tiveram constrangimentos para se pôr sob a proteção de um senhor dominial. Detentor de uma trecho daquelas terras, equiparavam-se aos colonos de origem romana e aos escravos; e como não tinham, esses pequenos proprietários, condições de resistir às grandes glebas senhoriais, acabavam absorvidos por estas. Lentamente, a gestação do Feudalismo acontecia na fusão de três células: a grande propriedade, a reserva comunal e a pequena exploração (tenência), resultando no domínio. E, de igual modo, escravos e livres fundiam-se para criar o servo.
O domínio é identificado à grande/enorme propriedade rural e muitas vezes interpretava-se como sendo o senhor de um grande número de vilas. Porém, aqui interpretaremos ao nível de cada vila o pensamento sobre domínio. Algo entre 200 a 2000 hectares, ou daí para cima. O traço característico de um domínio carolíngio não era tanto a sua dimensão mas a estrutura de seu funcionamento, a forma como era explorado e a distribuição interna de suas partes entre o senhor e os camponeses. Dividia-se em duas partes: a reserva senhorial (mansus indominicatum) e as tenências camponesas, também chamadas de mansos. A reserva senhorial consistia na maior e melhor fração da terra dominial, compreendendo três espaços bem demarcados: terras cultiváveis, a corte e a terra inculta. As primeiras eram os campos de exploração direta do proprietário e englobavam também as vinhas, os prados e os solos silvestres e baldios (importantes para a pastagem do gado menor e na obtenção de esterco). Esta reserva, por seu turno, organizava-se ao redor da corte, o centro de exploração da terra arável. Celeiros, cocheiras, estábulos, cozinha, gineceus (oficinas artesanais), moinhos e capela compunha os anexos desta seção. A maior parte da reserva senhorial compunha-se de bosques, o elemento complementar da economia agrária da Alta Idade Média, pois dali – a área de caça senhorial – saíam os couros e peles que substituíam os tecidos e onde se cevava o gado miúdo.

O conjunto das explorações camponesas constituíam-se nos dois terços restantes de um domínio, e essas tenências tinham caráter hereditário entre os seus possuidores. Era necessário tal recurso distributivo por parte do senhorio porque era preciso fazer frente à estagnação demográfica existente desde a crise no Império Romano, que desequilibrava a relação entre a mão-de-obra disponível e a necessária; e o regime agrário deveria se organizar visando a disponibilidade imediata de uma quantidade elevada de trabalhadores capazes de compensar até mesmo os efeitos do esgotamento progressivo da escravidão. Tornava-se mais vantajoso para o detentor de um domínio estabelecer o escravo – elemento cada vez mais residual na realidade embrionária do feudalismo – numa tenência, da qual ele tiraria seu próprio sustento ou, ainda, requisitar o grande número de jornadas de trabalho (corvéias) que a reserva exigia dos camponeses livres possuidores de mansos. Desta forma, a realidade do regime dominial era de fixar um amplo reservatório de mão-de-obra para o cultivo do mansus indominicatum, fossem quem fossem.
Embora a definição teórica de tenência significasse uma unidade de exploração capaz de satisfazer as necessidades de um casal de cultivadores, na prática o manso apresentava-se sob diferentes formas dentro de um mesmo domínio; distinguia-se, basicamente, de acordo com seu estatuto legal, ou seja, o manso livre do manso servil – isto é, sob a condição jurídica de seus detentores, homens livres ou escravos. O manso livre, em princípio, deveria ser maior do que o servil e era gravado com obrigações menos pesadas para o camponês que o detinha, como por exemplo, serviços de transporte e prestações ocasionais na reserva senhorial. O manso servil, ao contrário, impunha para o seu detentor (um escravo estabelecido) uma série de tarefas mais braçais e de caráter permanente junto à reserva senhorial. Mas, independente disso, todos os mansos eram dependentes dum senhor que deles esperava, anualmente, uma renda fixa ou censo, o símbolo do aluguel da fração de terra cultivada.
Até o século VIII tanto o camponês livre quanto o escravo estabelecido eram os emprestadores de suas qualidades às tenências que cultivavam. Mas, a partir daí, a situação invertera-se: mansos livres começaram a ser ocupados por escravos e tenências servis começavam a ser ocupadas por trabalhadores livres, graças aos senhores que, indistintamente, passaram a impor obrigações semelhantes para todas as tenências de uma mesma categoria, desconsiderando a condição jurídica de seu ocupante ou a capacidade produtiva e dimensões territoriais dos mansos; a motivação por trás dessa miscelânea é que o número de corvéias (jornadas de trabalho) aumentou consideravelmente, beneficiando a fonte dos bens necessários à manutenção tanto do senhor e sua casa quanto de seus companheiros de prestígio. Com essa inversão, nivelara-se a população rural, sendo a terra a definidora do estatuto dos homens: a necessidade do consumo senhorial que definira os parâmetros da exploração econômica.



A economia desta época caracterizava-se pelo desperdício: a dinâmica do funcionamento do organismo senhorial pressupunha grandes áreas de terra e mão-de-obra para a obtenção de medíocres excedentes de produção. Como estes eram apropriados pela aristocracia dominante, permitiam-lhe um nível de vida relativamente elevado, medido pela maior ou menor auto-suficiência da propriedade rural, transformada num símbolo de honra, prestígio e poder.
Mas esse domínio clássico ocidental foi tão clássico assim? Dentro dos limites do Império Carolíngio (onde nascera e se difundira), o domínio e sua dinâmica numérica e geográfica encontraram campo fértil para se impor como padrão econômico; mas em áreas afastadas deste império não chegara sequer a se enraizar, como na Escandinávia ou nas regiões do Mar do Norte. Nas províncias germânicas carolíngias, a estrutura dominial fora menos rígida talvez por conta da dispersão e distância entre os mansos livres que estes pagavam apenas o censo fixo anual, sem corvéias. De igual forma, verificara-se na Lombardia, Flandres, e oeste da Gália. A predominância dos mansos servis distribuídos ao redor da corte implicou a falência dos serviços devidos pelos camponeses livres à reserva, uma vez que esta dispunha de mão-de-obra suficiente. Hoje, parece não haver mais dúvidas de que o regime dominial não cobrira toda a área rural do Ocidente, levando muitos medievalistas à conclusão de que o domínio clássico não configurava-se como regra, e sim, exceção.





SOCIEDADE

Com a instalação progressiva nas terras romano-ocidentais, os bárbaros transdanubianos foram responsáveis pela criação de inúmeros reinos sobre as ruínas políticas do antigo império. Apesar de suas diversidades, todos tinham por fundamento a noção de fidelidade pessoal entre o chefe do bando armado (vulgarmente chamado de rei) e o seu séquito de guerreiros. Essencialmente militar e espontânea, a solidariedade germânica era incompatível com a idéia de Estado ou bem público, e a concepção de reino fundia-se com o raciocínio bárbaro de que este era a propriedade particular do soberano, usando-o como bem lhe aprouvesse.
A solidariedade era garantida pela prestação de um juramento de fidelidade (ou recomendação) através da qual os súditos se incorporavam à clientela em torno do rei. Esse vínculo era de obrigação mútua: aos fiéis (vassalos), cabia a obrigação do serviço das armas; ao soberano (suserano), o dever de proteger e auxiliar sua fiel clientela, propiciando-lhe, sobretudo, os meios de seu sustento. Desenvolvera-se, desde então, a prática da concessão do benefício, isto é, qualquer bem (mas quase sempre a terra) doado em recompensa pelos serviços prestados. Assim, o poder militar do rei saía fortalecido.




Havia uma contradição neste sistema: quanto mais vassalos pretendesse possuir o soberano, maior deveria ser o seu patrimônio, em face do oneroso sustento de seus seguidores, daí a necessidade da realização de novas conquistas. O círculo vicioso oriundo desta contradição gerava duas consequências: a mudança da essência do juramento – deslocada da lealdade ao chefe para o interesse na terra a ser obtida -, e a fragmentação inevitável do reino; neste último caso, ao ceder as terras, o rei cedia também parte do seu direito sobre a população local, e, dependendo de cada beneficiado, a autoridade real era posta em plano secundário pela autoridade local. O poder público desgastava-se lentamente e, no Império Carolíngio (onde essa relação suserano-vassálica tivera maior incidência), isso seria fatal para a manutenção da unidade territorial a partir do século IX.
No tocante ao trabalho nos primórdios do Feudalismo (século V ao VIII/IX), consolidara-se em definitivo a servilização da base estamental. Uma vez que era impossível à realeza manipular diretamente o campesinato (por obra dessas relações suserano-vassálicas, só mesmo as tenências nos próprios domínios reais eram passíveis de controle), a concessão de benefícios aos vassalos isolava a monarquia em relação ao mundo rural, reforçando ainda mais o poder dos senhores sobre a população produtora. Mas foi graças a isso que trabalhadores, livres ou escravos, tiveram sua condição social nivelada.




Numa análise inicial, parece que a nivelação fora gerada pela confusão entre os estatutos do homem livre e do escravo. Mas como a diferença entre eles era claramente estigmatizada pelo pagamento do capitagium pelo escravo (imposto de obrigação congênita transmitida por linha materna, de geração em geração), percebera-se, por fim, que a confusão se dera entre os estatutos da terra, que se tornara o fundamento de toda a sociedade. A exploração do produtor direto não se dava mais por sua situação legal mas pela do manso que cultivava, o que igualou a cobrança de encargos por igual (livres ou servis), independente do camponês que a ocupasse.
Veja como se deu esse nivelamento; em princípio, é importante distinguir que o reforço da dependência camponesa repercutiu de forma diferente sobre duas categorias de homens livres que existiam até então, os pagensi (francos) e os colonos.
Os pagensi ou pequenos proprietários eram os únicos cultivadores com total liberdade jurídica e econômica em pleno gozo da propriedade de sua terra e instrumentos de trabalho. Como francos, podiam ser ouvidos e julgados nos tribunais públicos. E como eram consanguíneos dos transdanubianos, deviam à realeza as obrigações elementares de todo cidadão: participação em tribunais públicos de sua região e a prestação de serviço militar (As Invasões Bárbaras) . Mas em função da disparidade existente entre sua condição econômica e sua condição jurídica, que lhes gerava encargos tão pesados, os pagensi achavam-se em vias de extinção; mesmo com todo esforço que os governantes carolíngios fizeram para evitá-lo, a pressão feita pelos grandes proprietários terminou por agregá-los à servidão nascente.



Os colonos, por seu turno, definiam-se como o homem juridicamente livre mas não proprietário, frutos da desagregação do império romano com a fuga dos citadinos para o campo em sua submissão aos grandes proprietários. Usufrutário permanente de uma tenência num domínio, sua dependência com relação ao senhor era total, pois não mais haviam mecanismos legais para protegê-los, e com isso, a mediação entre eles e o Estado se fazia através do grande proprietário. Quando homens livres, os colonos também deviam as obrigações oriundas da antiga cidadania. Só que era comum os senhores subtraírem os deveres militares de seus colonos, substituindo por prestações de serviço (corvéias) e requisições de gênero (hostilicum). A consequência desta prática, numa sociedade protagonizada por guerreiros, foi o aviltamento da condição de homens livres, que se tornavam uma presa fácil de coação dos que detinham o monopólio das armas.
Um conjunto de fatores explicariam o declínio e a superação da escravidão: por um lado, as conquistas carolíngias, definindo as fronteiras do império, diminuiu a possibilidade do abastecimento de mão-de-obra; por outro lado, a cristianização do Ocidente gerou uma condenação ética da escravização dos povos agora batizados (mesmo que à força). Mas o argumento mais forte quanto à questão foi a própria organização do domínio. O alto custo de manutenção de um contingente que permanecia ocioso fora dos períodos de safra, obrigou os senhores a estabelecer seus escravos em lotes da reserva senhorial, mesmo sem tê-los libertado. Garantindo as condições de reprodução da família escrava, livrava-se também dos gastos com a vigilância e sustento tipicamente de cativeiro, obrigando-os a produzir rendas in natura e trabalho gratuito na reserva a qualquer momento, durante o ano todo. Na prática, à exceção do capitagium, todos os encargos característicos da escravidão desapareceram, havendo uma melhoria na condição social de fato – mas não de direito, pois ele continuava a ser um bem móvel, parte integrante do domínio que, como tal, podia ser vendido ou doado com ele.
O deterioramento da condição social do homem livre e o abrandamento da condição do escravo levram a fusão desses grupos numa só categoria de dependentes, cujos têrmos designativos – colono e pagensi – desapareceriam dos textos a partir do século IX, com os últimos momentos do mundo carolíngio, substituído pelo uso vulgarizado da palavra servus.



segunda-feira, 23 de abril de 2012

Religiosidade popular no Brasil Colônia - resenha




Mais um texto 'liquidificado" para melhor compreensão no grupo de estudo desta semana - até amanhã, companheiros de sufoco!









LIQUIDIFICANDO E PENEIRANDO
HISTÓRIA DO BRASIL COLÔNIA
RELIGIOSIDADE POPULAR NA COLÔNIA


MELO E SOUZA, Laura. O Diabo e a Terra de Santa Cruz. São Paulo: Cia das Letras, 1986

Resenhado por: Jorge Luiz da Silva Alves (3º período, UCAM/Santa Cruz)


     A organização do catolicismo no Brasil colonial fora forjada pelos jesuítas, incentivado e sustentado pelo sistema do Padroado¹. Com esse beneplácito papal para os reinos ibéricos desde antes do descobrimento, o catolicismo colonial revestira de poder religioso as autoridades reinóis nos trópicos, numa proveitosa interseção para ambos os lados: a Inquisição assumia ares de polícia quase política na privacidade popular e o governo da colônia decidia os caminhos da Sé escolhendo e dirigindo os padres e suas paróquias.
     Com a atuação dos capelães de engenho ao lado dos senhores, Gilberto Freyre descuidou-se do papel do estado e enfatizou o das famílias no processo da colonização, denominando como “catolicismo de família”, ou seja, 'o capelão subordinado ao pater familiæs'. Assim, a religiosidade subordinar-se-ia à força aglutinadora e organizatória dos engenhos de açúcar, integrando o triângulo da Casa Grande-Senzala-Capela. O familismo explicaria, segundo o autor, a acentuada afetividade e maior intimidade com a simbologia católica; porém, o mesmo relegaria as manifestações indígenas à mata fechada e as africanas à insalubridade da senzala. Ao descaso do Concílio de Trento² no primeiro século de existência, é com o referido familismo que Freyre preenche esse vácuo religioso na Terra de Santa Cruz, pois o Concílio não legara qualquer dos seus triunfos na cristandade católica da Europa meridional (Península Ibérica e Península Itálica) no universo ultramarino.
     Mesmo na Europa, a uniformidade tridentina demorara para se estabelecer; somente no século XVIII é que os bispos setecentistas “descobriram um povo rural que frequentemente não conhecia os elementos básicos do cristianismo”. Keith Thomas chamava isso de “religiosidade inortodoxa”. Havia um esforço enorme por parte do catolicismo europeu da época, para separar o cristianismo das camadas populares dos muitos veios de paganismo ainda existentes, do profundo desconhecimento dos dogmas, a participação na liturgia sem a compreensão do sentido dos sacramentos e da própria missa. Delineava-se um confuso apego às missas e procissões impregnado de magismo, afeito antes às imagens do que à coisa fugurada, mais ao aspecto externo do que ao espiritual.
     Eivado de paganismos e de “imperfeições”, o catolicismo de origem européia praticado por esses fiéis que mal distinguiam o mal do natural, a imagem da coisa figurada, o visível do invisível, continuaria, na colônia, a se mesclar com elementos estranhos a ele, multifacetados com a religião africana e às práticas dos indígenas; a originalidade da cristandade brasileira residiria, portanto, numa espécie de “mestiçagem espiritual”. Traços católicos, negros, indígenas e até judaicos (os cavaleiros entre duas fés: considerado judeu pelos cristãos e cristão pelos judeus que vêem-nos afastando-se de seu credo original por questão de sobrevivência) misturavam-se na colônia americana, tecendo uma religião sincrética e especificamente colonial, repetindo-se aqui a história da cristanização do Ocidente no nadir romano e no alvorecer feudal.

(1) http://pt.wikipedia.org/wiki/Padroado_portugu%C3%AAs
(2) http://pt.wikipedia.org/wiki/Conc%C3%ADlio_de_Trento